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*artigo de minha autoria.
*Neurociência e Comportamento: Aspectos Cognitivos e Emocionais no Processo de Aprendizagem
*Neurociência e Comportamento: Aspectos Cognitivos e Emocionais no Processo de Aprendizagem
Introdução
Este trabalho foi planejado para tentar fazer conexões entre a Neurociência e a Educação Infantil, de modo a levantar hipóteses sobre o funcionamento da memória de crianças bem pequenas, utilizando para isso, fundamentos da Psicologia, da Neurociência e a minha experiência com a prática educacional. Grande parte deste trabalho foi baseado no livro The Emotional Brain-the mysterious underpinnings of emotional life de Joseph LeDoux, sendo este um dos poucos livros que tratam da "mente emocional" disponíveis aqui no Brasil.
O título traz o conceito "memória emocional" que foi um termo escolhido por mim por representar melhor a idéia a ser desenvolvida.Podemos entender por memória emocional um sistema complexo que relaciona o armazenamento de experiências emocionais, a avaliação destas experiências e a criação de emoções a partir das mesmas, bem como o resgate destas memórias e a externalização em respostas corporais. Em relação à readaptação escolar de bebês e crianças bem pequenas (0 a 3 anos de idade), este trabalho tem como função explicar o funcionamento da memória da criança quando esta retorna à escola depois de um período de recesso, que em muitos casos provoca a reação de "estranhamento" pela criança e o questionamento dos pais sobre a causa da estranheza desta em relação à escola,sua turma e professores.
O livro The Emotional Brain-the mysterious underpinnings of emotional life ,utilizado neste trabalho, foi escrito por Joseph LeDoux , Professor de Ciências de Henry e Lucy Moses no Centro de Ciência Neural na Universidade de Nova Iorque. Ele foi premiado com o prêmio de Mérito e o prêmio de Desenvolvimento do Cientista de Pesquisa do Instituto Nacional de Saúde Mental, assim como subsídios da Fundação Nacional de Ciência e da Associação do Coração Americano.Ele mora atualmente em Nova Iorque. Neste livro LeDoux investiga as origens das emoções humanas e explica que muitas existem como parte de um complexo sistema neural que está envolvido para possibilitar nossa sobrevivência.Começou seu trabalho com os mecanismos cerebrais das emoções nos anos 70. O livro The Emotional Brain foca em questões de como o cérebro detecta e responde à estímulos do ambiente ao redor, como ocorre a aprendizagem emocional e como as memórias emocionais são criadas e como nossos sentimentos conscientes surgem de um processo inconsciente.
Para contextualizar as teorias utilizei minha prática de 5 anos com bebês e crianças bem pequenas (0 a 5 anos) em instituições de Educação Infantil Bilíngues.
O Desenvolvimento Infantil
Os oito meses de idade de um bebê marca um importante divisor de águas no desenvolvimento da memória. Apesar da habilidade considerável de reconhecimento e habilidade de aprendizagem dos bebês , eles não são capazes de armazenar o tipo de memória que nós normalmente pensamos como memória- lembranças conscientes de fatos ou eventos passados.A memória "real" ou explícita emerge muito gradualmente, começando nos primórdios dos primeiros anos e progressivamente aprimorando-se durante a infância.A infância tardia se dá quando os neurônios granulares na região hipocampal são totalmente formados, quando a mielinização de importantes vias límbicas estão em curso, e quando a atividade no lobo frontal- o qual tem papel nas memórias conscientes de curta e longa-duração- realmente decola.[1]
A grande mudança que ocorre a partir dos oito meses é o surgimento da recordação (recall).Diferentemente do reconhecimento, onde o bebê encontra com um estímulo e tem de se lembrar se já havia visto aquilo antes, a recordação se dá sem necessidade de nenhum tipo de reencontro. Eventos passados, objetos e fatos vêm à mente, desferidos pela associação de um estímulo, mas não necessariamente são resultados da mesma experiência.O reconhecimento é automático enquanto a recordação é um processo consciente.
Nesta idade surge a ansiedade de separação (separate anxiety), que faz com que o bebê fique agitado assim que sua mãe some de seu campo de visão. Desde dos seis meses os bebês são capazes de reter uma imagem mental de um objeto ou pessoa mesmo depois de alguns instantes em que este foi retirado de sua visão, o que chamamos de memória de curta-duração.
O Sistema de Recordação
Pesquisadores tentam entender o desenvolvimento da recordação e a existência da memória de longa duração em bebês utilizando um procedimento chamado"imitação deferida" (deferred imitation). Explorando a vontade que os bebês demonstram de imitar os gestos de outras pessoas, eles demonstraram que bebês conseguem se lembrar de acontecimentos da sua vida por grandes períodos de tempo. As experiências foram feitas a partir da demonstração de, por exemplo, uma pessoa montando um gongo com três pedaços de metal e uma criança de 1 ano assistindo; viu-se que mesmo após quatro meses passados da experiência, sem que a criança tenha treinado, ela consegue repetir o mesmo procedimento que tinha visto anteriormente.Isto demonstra que os bebês estão realmente conscientes do que estão fazendo, por outro lado alguns pesquisadores discordam e psicólogos chamam esta tarefa de recordação com dicas (cued recall), dizendo ser mais fácil do que a pura recordação onde não há estas dicas.
Outro tipo de recordação é a linguística ou verbal, o qual se conceitua um processo consciente.A recordação verbal nos permite avaliar se a criança está verdadeiramente consciente de eventos passados vividos por ela.Em torno dos dois anos as crianças começam a falar e aos três já dominam a fala a ponto de conseguirem recordar a expressar eventos passados ocorridos à um ano atrás.
O experimento de imitação deferida demonstrou que crianças de um ano conseguiam lembrar de fatos que aconteceram mesmo antes de saberem falar, o que prova que a língua não é pré-requisito para o sucesso da recordação.Porém, durante o período da infância, mesmo após o completo desenvolvimento do hipocampo e dos circuitos corticais, a recordação verbal ainda não está totalmente desenvolvida até que a criança adquira uma habilidade linguística especial: a arte da narrativa.Até esta fase ocorrerá o que Freud chamou de Amnésia Infantil, ou seja, a dificuldade de relembrarmos eventos ocorridos durante a infância quando somos adultos. Só quando as crianças conseguem perceber a relação entre eventos, quando eles conseguem colocar suas lembranças pessoais em um contexto de tempo, espaço e causalidade que suas memórias sobreviveram da infância para a vida adulta.
De acordo com O'Keefe e Lynn Nadel "o hipocampo forma representações espaciais sensoriais-independentes, criando um contexto que fazem as memórias serem localizadas no espaço e tempo". "Memórias consciente, declarativa ou explícita é mediada pelo hipocampo e áreas corticais relacionadas, enquanto vários tipos de memória inconscientes ou implícitas mediadas por diferentes sistemas. Um sistema de memória implícita é um sistema de memória emocional envolvendo a amígdala e outras áreas relacionadas"."Jacobs e Nadel propuseram que o sistema que forma as memórias inconscientes de eventos traumáticos poderia amadurecer antes do hipocampo...nós sabemos agora, é claro, que este sistema envolve crucialmente a amígdala e suas conexões"[2] Jacobs e Nadel também propuseram que nós não temos memórias explícitas da nossa infância porque este sistema (hipocampo) não estava totalmente formado na época. "...estudos de comportamento sugerem que a amígdala de fato amadurece antes do hipocampo".[3]
Existem portanto, memórias emocionais e memórias de emoções. As primeiras estão relacionadas com a amígdala e sua conexões que fazem parte do sistema das memórias inconscientes, que se ativam juntamente com as respostas corporais durante a recordação.As segundas estão relacionadas ao fato de que podem ser declaradas sobre uma experiência emocional,ou seja, são memórias explícitas sobre experiências emocionais, e estas envolvem o hipocampo como principal sistema.
Trazendo estes conhecimentos para a prática podemos dizer que a criança ainda na escola vivencia diversas experiências emocionais com seus colegas e professores. Ao ficar em casa com sua mãe durante um período mais prolongado, como por exemplo três semana ou um mês, ao voltar para a escola a criança lembra do nome de seus colegas e professores, o lugar da sua sala, porém não se recorda como sentia a respeito destas pessoas e desse lugar, ou seja, não há uma memória explícita de que tal situação era boa ou ruim e, portanto, sua memória implícita se apóia na memória explícita mais recente daquilo que considera bom, neste caso a mãe. As mães (ou pessoa responsável que ficou com a criança durante o período longe da escola) diante deste estado ficam se perguntando, perguntando à criança e ao professor o que está acontecendo com seu filho, pois talvez em sua visão possa entender que a criança não goste mais do lugar ou das pessoas ou que algo de ruim aconteceu para que a criança não queira ficar naquele lugar longe dele. É fundamental, então, a permanência do responsável durante o tempo que a criança demonstrar necessidade para observar a confiança daquele nas pessoas cuidadoras da escola, recobrando aos poucos esta memória explícita de que sentia-se bem sobre as experiências que teve meses atrás naquele lugar. Algumas ações demonstram ajudar a criança a recobrar mais rapidamente esta memória explícita, como por exemplo mostrar fotos e vídeos da criança se divertindo na escola com seus colegas, ou levá-la ao seu lugar favorito da escola, assim como conversar com a mesma relembrando-a dos momentos prazerosos vividos juntos.O livro The Emotional Brain (Joseph LeDoux,1996) reafirma esta idéia da presença de dicas para a facilitação da recordação nestes três trechos:
"Um dos componentes de uma memória explícita de uma experiência emocional do passado será as implicações emocionais desta experiência. A presença de dicas que ativa este componente irá facilitar a ativação da rede associativa. As dicas relevantes, neste caso, serão dicas diretamente da mente e do corpo que sinaliza que você está no mesmo estado emocional como durante aquele da aprendizagem. Estas dicas irão ocorrer porque o estímulo que age no sistema explícito também age no sistema implícito de memória emocional, causando o retorno do estado emocional armazenado como parte da memória explícita, facilitando a ativação da memória explícita".
"Em modelos de redes associativas, a memória é vista como sendo guardada como conexões entre nós de conhecimento. Quanto mais extensivamente os nós estiverem conectados, mais a memória é facilmente recuperada e vívida".
Sobre a aprendizagem dependente do estado emocional: " A aprendizagem que toma lugar em uma situação ou estado é geralmente melhor relembrada quando você está na mesma situação ou estado".
Tão importante quanto ajudar a criança a relembrar dos eventos passados vividos por ela, também é fundamental criar um ambiente de adaptação que favoreça esta recordação, ou seja, um momento que não seja potencialmente estressante, tanto para a criança como para os pais, pois este estado mental influencia nas lembranças recordadas pela criança, como diz Joseph LeDoux: "memórias são reconstruções imperfeitas de experiências: mesmo pensando que uma memória de uma experiência emocional seja forte e vívida, ela não é necessariamente precisa. Memórias explícitas, independentemente de suas implicações emocionais, não são cópias de carbono das experiências que as criaram. São reconstruções no momento da recordação, e o estado da mente no momento da recordação pode influenciar a maneira em que a memória afastada é relembrada".[4]
De acordo com Joseph LeDoux "John Kihlstrom propôs que um link deve ser feito entre a representação mental de um evento e a representação mental do "self" como um agente ou experimentador em ordem para nós sermos conscientes do evento."
Considerações Finais
A partir dos conceitos de Neurociência podemos entender como funciona os mecanismos de memória dos bebês e das crianças pequenas, porém muito pouco ainda foi pesquisado sobre a memória emocional, principalmente com crianças, o que dificulta a ação de interdisciplinaridade entre a Pedagogia e as Neurociências. Acredito que esta parceria seja muito significativa para ligar a prática à teoria e poder entender com quem estamos lidando e o que podemos melhorar nesta relação de educação.
As práticas educacionais são neste quadro fundamentais para comprovarem as concepções teóricas que, por aquelas que abordam a infância restritamente, pouco conseguem avançar em pesquisas com animais e também por esta peculiaridade não podem fazer testes em seres humanos.
Referências Bibliográficas
ELIOT,Lise. What's Going on in There? : How the Brain and Mind Develop in the First Five Years of Life. New York, Batam Books, 1999.
LeDoux,Joseph. The Emotional Brain: the mysterious underpinnings of emotional life. New York, Simon and Schuster Paperbacks,1996


